Dai então, a Primavera.

Sua pele manchava a cor. Deslizavam, sobre o marrom, os poros.  O calor não continha a incoerência do vento gelado, e aquelas eram pernas não tinham pressa. Lá pra dentro da janela se ouvia o despertador tocar, um zilhão de vezes, e o café estava forte. A fumaça do café dava forma a um corpo inerente ao belo.

O Cronômetro era arbitrário. Ao terminar o café seria a hora do trabalho. Mas primeiro da caminhada. Seguida dos encontros no ônibus. Os vários cheiros. As várias vontades de ir embora. Na entrada do trampo, prender o cabelo. No vestuário, encaixar o uniforme na sua pele, na sua cor.

Hora do almoço, outro café. E a fumaça como patente das pernas.  Conversas de amor, ódio, paixão, relação e desespero. Haviam muitos desesperos nesses assuntos de trabalho. Muitos desesperos em baixo das unhas daqueles trabalhadores de uniforme. E eram muitas histórias, todas iguais, com diferença de odor, mas todas iguais.

Hora de ir embora. O cronômetro era solidário. Sua casa parecia-lhe grande. Outro café foi passado. E então o sofá. Deslizavam sobre o marrom os poros. Seu corpo não se mantinha suficiente. O espaço era escasso. A medida que tudo aumentava menos o corpo, o ar a detinha mais e mais pela madrugada. Faltava-lhe ar para dormir. Então, passou a faltar-lhe o sono.

A pele parecia cada vez mais grosseira. Manchava tua cor. Enfincavam sobre o marrom, os poros, os pelos, a oleosidade.

Era a hora de ir embora. Não de uniformes e cafés amargos. Era hora de ir embora tomar água.

Família

Camisetas pretas e foguetes coloridos… nada é belo o bastante. Quando você menos espera tem uma casa com cortinas bejes e alguns filhos pra cuidar. E um manual de boa conduta a ser seguido sistematicamente.

Você, que não gostava de usar máscaras, passa a usar as máscaras que o cotidiano lhe impõe, sem nenhuma vírgula de pausa.

E a louça precisa ser lavada.

Assim, sem rodeios, o que todos chamam de amor e paixão não te deixa se desprender um ciclo-vicioso que se chama lar. Você quer partir, na mesma intensidade em que quer ficar.

O mesmo cotidiano que te martiriza, te consola… e te dá orgasmos. E nada, nunca, é o bastante.

A noite os arrepios não são da bebedeira, a viajem agora é outra. Pequenos momentos que te recompensam minuto após minuto e te deixam também pra baixo, te pisam, te humilham, te maltratam e daí um sorriso.

E daí uma lágrima.

Mesmo no silêncio, nada silencia. Ai acontece o que todos chamam de

FAMÍLIA.

Carinha de menina, ele disse

 

Quando sai do hospital a primeira coisa que ouvi a cerca de minha filha foi “Ela já tem rosto de menina, não é como os outros recém nascidos que não dá pra saber o sexo”

Minha filha nasceu privilegiada. Ela é branca, como branca de neve, bem branca. Não vai passar por situações de racismo como eu já passei. Não vai ser branca demais para os pretos e nem preta demais para os brancos, sempre, em qualquer lugar que for, vai ser branca. Ela não tem um nome estranho como o meu, seu nome é comum e todas as pessoas falam que é um nome forte, causa impacto. Tem cabelos lisos. Olhos grandes. Tem menos de um mês de vida e já brinca com os penduricalhos do berço, já sorri de algumas caretas dos pais. Tem livros na estante. Livros infantis, de história, de estudos sociais, filosofia, literatura e até artes. Tem um pai professor bem informado, que não é machista,  uma mãe que dedica seu tempo aos filhos e adora fazer bolo de chocolate, e certa noção de feminismo. Tem um irmão hiper carinhoso que canta quando ela está revoltada.

Ela é privilegiada por ser branca, saudável, aparentemente inteligente, ter informação à disposição, pais que se amam, um lar aparentemente saudável, uma gata esperta. Mas não é privilegiada apenas por ser mulher.

Minha filha nasceu privilegiada, mas ( e sempre tem um mas), já nasceu menina.

Sei que não sou sexy

“Eu sei que não sou sexy” ela disse, assim, bem baixinho, com a voz quase engatinhando pelos vãos do espelho rachado.  Ele observava sua arrumação com certa lisonja, orgulhava-se da intimidade exagerada que se inflamava a cada escovada daquela madeixa preta alisada. Sentia-se privilegiado em poder acompanhar o antes e depois da vaidade quase lúdica que a companheira desfilava.  De batom cor de rosa e cabelo preso, ela se permitia a liberdade de seus seios pequenos.  O não uso do sutiã era algo quase natural. Ele não faltava, e se houvesse, não acrescentava, era tão dispensável quanto saltos altos. Seu corpo e seus modos não precisavam de correção. Esperava ansioso para que o tempo rolasse para fora do couro fios crespos e grisalhos. Esperava ansioso que o final do dia chegasse levando com a rotina todo o rosa dos lábios grossos e escuros de cigarro barato. Aconchegava-se  em suas grandes ancas, esperançava-se nelas. Ali, naquelas gordas ancas, alimentava-se de futuro.

Mas ela sabia que não era sexy. Entre tantas outras coisas que ela sabia sobre si. Todo esse auto conhecimento não reprimia a intimidade, o afeto e o desejo. Aquele saber todo sobre si somente fazia aumentar a fome.

Surgiu entre as pernas um tal de sangue.

dscn2957

 

Nascera com algo entre as pernas que determinava a cor de seu berço, seus laços na cabeça, bolinhas vermelhas no vestido e borracha de joaninha. Não conseguia entender a diferença entre a mãe e o pai, tirando os seios, ambos pareciam da mesma espécie, raça ou seja lá o que fosse. Mamãe não estava em casa pela manhã, nem papai, nem ela mesma. Todos passavam as manhãs atarefados. E, a tarde, papai odiava lavar a louça, mamãe também. Mamãe tinha mania de usar as cuecas de papai por debaixo do pijama. E papai, sem avisar, pegava as camisetas de animais da mamãe. Ambos dormiam com um cobertor que era marrom, nem azul, nem rosa. Mas ela tinha uma cama cor de rosa e laços nos sapatos. E seu irmão um cobertor de super homem e tênis do bem 10. E agora aquele tao de sangue entre as pernas escorrendo sem parar por quase dez dias seguidos. Uma dor que não respeita.  E a conversa com a mãe. Com um senhor antipático chamado ginecologista. Balinhas coloridas numa tabela de dias certos. Seios parecidos com os da mamãe. A mamãe que não é mais mamãe, é apenas Mãe. Curso de inglês, absorventes, cantadas indiscretas. Um short maior que esconda mais o meu sexo. Algo novo, a vergonha. Vergonha de teus seios, de tua nova cintura, das tuas cochas roliças. Medo da invasão. Bicicleta agora só de calça comprida, para evitar. Tranças no cabelo, ela mesma tem que fazer, não mais com histórias. A tarefa da manhã não é mais estudo é trabalho. E o sangue que a fez mulher, agora também a fez mamãe, nem lembra direito como isso foi acontecer. A mãe se transformou em avó, e não usa mais cuecas nem calças de pijamas, usa camisola e esmalte vermelho. O Pai não tem mais camisetas de animais pra pegar, agora ele não se veste mais de amor, vive cansado e só pensa em ser o avô das balas. O irmão não assiste mais ben 10, e agora aparece só pra fazer programas de tio. E ela tem uma aliança no dedo. Cuecas pra roubar, batons de várias cores pra usar. Saias com bolinhas brancas. Um terno feminino para o trabalho, uma camisa masculina para o pós- orgasmo, e um salto para as festas.

Continua a sangrar. Entre as pernas. Um tal de sangue que sem querer a fez mulher. Numa tal de vagina, que a obrigou a ser menina.

De volta ao conforto do ócio

dscn2956Tira os sapatos, cansado da poesia forçada do dia inteiro.  Arremessa no ar, alguns palavrões como sinal de alívio. Sentar na cama é o inicio de um ritual de descanso que só dura até às nove da manhã do dia seguinte. Reclama constantemente de uma depressão que o desabilita de algumas funções burocráticas. Diz não gostar de arte. Enquanto articula constantemente com a mesma. Adotou o café e o cigarro como seus amigos invertebrados. É assim que se organiza, é assim que pauta o tempo e também suas conversas. Aprende mais do que ensina… E ensina. Ensina tanto que já não sabe parar de aprender.

Ficamos ao seu entorno aficionados pelo conforto de seu corpo magro. Essa pele sempre macia que nunca é de todo consumida. Tem um “Q” de eternidade incompreensível. Faz ode ao ócio, enquanto ri de nossas tantas particularidades. Dentro de casa, uma simples risada o serve de espetáculo. Não pretende incomodar, mas se faz presente de uma forma latente, mesmo quando em silêncio suas formas e traços são gritantes monumentos de saber.

Sente tanto com tanta frieza que nos aquece.  Escolhe a dedo seus vícios. Não sente cocegas. E não sabe o que fazer com seus instintos de revolução. Vive a beira da “treta”. Esgueirando entre as esquinas da revolta. Espera-se explosão ou entorpecimento.

Mas por enquanto, só o que precisa é de um café e um cigarro.

Do tempo do corpo

dscn2953Sua pele manchava a cor. Deslizavam, sobre o marrom, os poros.  O calor não continha a incoerência do vento gelado, e aquelas eram pernas não tinham pressa. Lá pra dentro da janela se ouvia o despertador tocar, um zilhão de vezes, e o café estava forte. A fumaça do café dava forma a um corpo inerente ao belo.

O Cronômetro era arbitrário. Ao terminar o café seria a hora do trabalho. Mas primeiro da caminhada. Seguida dos encontros no ônibus. Os vários cheiros. As várias vontades de ir embora. Na entrada do trampo, prender o cabelo. No vestuário, encaixar o uniforme na sua pele, na sua cor.

Hora do almoço, outro café. E a fumaça como patente das pernas.  Conversas de amor, ódio, paixão, relação e desespero. Haviam muitos desesperos nesses assuntos de trabalho. Muitos desesperos em baixo das unhas daqueles trabalhadores de uniforme. E eram muitas histórias, todas iguais, com diferença de odor, mas todas iguais.

Hora de ir embora. O cronômetro era solidário. Sua casa parecia-lhe grande. Outro café foi passado. E então o sofá. Deslizavam sobre o marrom os poros. Seu corpo não se mantinha suficiente. O espaço era escasso. A medida que tudo aumentava menos o corpo, o ar a detinha mais e mais pela madrugada. Faltava-lhe ar para dormir. Então, passou a faltar-lhe o sono.

A pele parecia cada vez mais grosseira. Manchava tua cor. Enfincavam sobre o marrom, os poros, os pelos, a oleosidade.

Era a hora de ir embora. Não de uniformes e cafés amargos. Era hora de ir embora tomar água.