Sem um puto no bolso

Foi chamada numa entrevista de emprego para o cargo de atendente. Ela já trabalhou assim, a vida toda, alias. Nunca gostou. Era a noite anterior á entrevista e estava arrumando sua bolsa, depois de um longo tempo sem nem usa-la. Percebeu que não tinha muito o que colocar ali dentro, fora os documentos, não havia muita coisa. Abriu o armário de roupas para escolher a peça menos surrada, que fosse aceitável numa entrevista, num emprego, numa vida fora de casa e dos produtos com cloro. Não tinha muita coisa… Não tinha quase nada. Seus dedos dançavam ansiosos entre roupas doadas, que nada tinham a ver com o seu gosto pessoal, e roupas velhas. Nada que ela realmente quisesse vestir. Seus sapatos ganhados, até bonitos.  Mas não era de seu gosto. Se olhou no espelho e aquele reflexo nem era dela.

Algumas coisas mudaram demais desde que você se casou, nem parece a mesma pessoa.

Ninguém entendia muito bem. Era um relacionamento que a satisfazia. Mas sentia-se anulada. Parou se sair a não ser que fosse muito necessário. Passando os dias dedicada aos cuidados da casa, dos filhos, roupas pra lavar que nunca acabavam, almoços e jantares que nunca gostava muito. O marido sentando na privada para pensar em como conseguiria o dinheiro para fechar o mês. O menino quer comer frango. A ração acabou. Preciso de sabão em pó. O espelho quebrou na enchente. A estante também. Mês de aniversário, livros ou roupas novas? Pra que roupas? Nem mesmo saio de casa…

Não é o casamento que anula, é a pobreza. Se você não tem como pagar, sua estampa some, seu salto quebra, sua maquiagem derrete e você não é ninguém.

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Só até o molho de tomate, por favor…

Atirou-se da porta como um grito. O sol estava ardendo e ainda era bem cedo. Havia em sua mente uma lista de obrigações do lar e ela ainda estava no café, em pé, na varanda.  “Com esse sol, podia aproveitar para lavar os cobertores, mas não sei se dá tempo”. Queria comer bem devagar passeando com Alice Através do Espelho, mas tudo precisava ser rápido, o coelhinho do tempo já buzinava em seus ouvidos, logo o bebê acordaria pedindo leite, a gata viria num só ronronar pedindo carinho. E o marido pedindo ventre. E ela, só pensava no espelho de Alice.  Havia um pouco de dor em seu café. Bem pouco de nicotina. Muito de desejo.

Ninguém lhe pedira conforto, ninguém lhe pedira limpeza, arrumação ou louça lavada. Todos da casa já acordavam lhe suplicando carinho. Um carinho que tinha se perdido entre afazeres domésticos. “Depois que aprendeu a passar pano no chão desaprendeu o cafuné”, dizia-lhe seu marido.  Enquanto alastrava-se pela casa o cheiro de molho de tomate com pimenta o filho grudava os braços pedintes em suas pernas.

A medida que foi retomando seu corpo para si, abandonava os outros corpos da casa, os cuidando de longe, na delicadeza de um almoço bem feito, de um café recém passado ou de um amaciante cheiroso na roupa.

Haveria de ter um retorno. Pois a saudade era grande. Pois não queria perder o domínio de seu corpo. Toda a conquista da independência íntima.  Do poder da posse.

O café acabando, sentou-se na mesa da cozinha e abriu o capítulo do Jardim das Flores, e esperou, leu, esperando, até que os outros acordassem e lhe roubassem só um pouco. Só até o almoço, e o molho de tomate.

Vida de Adulto

Todos se  preparam, por  toda adolescência para um tipo de sociedade, que pode até ser idealizada em certa porcentagem, mas era aquela sociedade que estava se abrindo. Sonhamos que poderíamos ser quem fossemos, sem nos amarrar, algo que a infância não permitia, a idade adulta permitiria. Então, faculdade termina. Todos os esforços para poder usufruir daquela sociedade com poucos grilos que as gerações passadas foram preparando pros filhos do amanhã.

Tudo começa, de uma hora pra outra, se desmoronar. Ela sentia-se assim, desmoronada. Era bem essa a palavra. Não foi bem como o planejado. Seus cabelos curtos começaram a ser mal vistos de um dia pro outro. Suas ideias pareciam indecentes. Seus outrora maravilhosos desenhos de anatomia, passaram a serem vistos como vulgaridade. Presar por seus direitos passou a não valer  mais a pena. Seus sonhos não eram mais inspiradores, era uma mala ingênua de luxinhos vãos. Suas reclamações, seu choro, seu sofrimento, passaram a serem vistos como frescuras de gente mimada. Seus ovários doíam. Seu estomago gritava. Seus pulmões respiravam mal. O dinheiro era curto. Suas roupas eram velhas e impessoais. Seus sapatos eram impessoais.

Todos tinham uma opinião. Todos tinham um espelho.

Ela não tinha mais um espelho. Não se via mais. Não se achava necessária. Não era mais necessária. Não exercia mais nenhuma função. Todo o seu eu foi engolido, sabe-se lá como ou porque.

Não sabia como agir. Se se rendia de vez ou comprava suas armas.

Depois de muito choro. Muitos antidepressivos e terapias sem sentido. Depois de muitas tragédias e delírios. Resolveu deixar os cabelos crescerem.

Dai então, a Primavera.

Sua pele manchava a cor. Deslizavam, sobre o marrom, os poros.  O calor não continha a incoerência do vento gelado, e aquelas eram pernas não tinham pressa. Lá pra dentro da janela se ouvia o despertador tocar, um zilhão de vezes, e o café estava forte. A fumaça do café dava forma a um corpo inerente ao belo.

O Cronômetro era arbitrário. Ao terminar o café seria a hora do trabalho. Mas primeiro da caminhada. Seguida dos encontros no ônibus. Os vários cheiros. As várias vontades de ir embora. Na entrada do trampo, prender o cabelo. No vestuário, encaixar o uniforme na sua pele, na sua cor.

Hora do almoço, outro café. E a fumaça como patente das pernas.  Conversas de amor, ódio, paixão, relação e desespero. Haviam muitos desesperos nesses assuntos de trabalho. Muitos desesperos em baixo das unhas daqueles trabalhadores de uniforme. E eram muitas histórias, todas iguais, com diferença de odor, mas todas iguais.

Hora de ir embora. O cronômetro era solidário. Sua casa parecia-lhe grande. Outro café foi passado. E então o sofá. Deslizavam sobre o marrom os poros. Seu corpo não se mantinha suficiente. O espaço era escasso. A medida que tudo aumentava menos o corpo, o ar a detinha mais e mais pela madrugada. Faltava-lhe ar para dormir. Então, passou a faltar-lhe o sono.

A pele parecia cada vez mais grosseira. Manchava tua cor. Enfincavam sobre o marrom, os poros, os pelos, a oleosidade.

Era a hora de ir embora. Não de uniformes e cafés amargos. Era hora de ir embora tomar água.

Família

Camisetas pretas e foguetes coloridos… nada é belo o bastante. Quando você menos espera tem uma casa com cortinas bejes e alguns filhos pra cuidar. E um manual de boa conduta a ser seguido sistematicamente.

Você, que não gostava de usar máscaras, passa a usar as máscaras que o cotidiano lhe impõe, sem nenhuma vírgula de pausa.

E a louça precisa ser lavada.

Assim, sem rodeios, o que todos chamam de amor e paixão não te deixa se desprender um ciclo-vicioso que se chama lar. Você quer partir, na mesma intensidade em que quer ficar.

O mesmo cotidiano que te martiriza, te consola… e te dá orgasmos. E nada, nunca, é o bastante.

A noite os arrepios não são da bebedeira, a viajem agora é outra. Pequenos momentos que te recompensam minuto após minuto e te deixam também pra baixo, te pisam, te humilham, te maltratam e daí um sorriso.

E daí uma lágrima.

Mesmo no silêncio, nada silencia. Ai acontece o que todos chamam de

FAMÍLIA.

Carinha de menina, ele disse

 

Quando sai do hospital a primeira coisa que ouvi a cerca de minha filha foi “Ela já tem rosto de menina, não é como os outros recém nascidos que não dá pra saber o sexo”

Minha filha nasceu privilegiada. Ela é branca, como branca de neve, bem branca. Não vai passar por situações de racismo como eu já passei. Não vai ser branca demais para os pretos e nem preta demais para os brancos, sempre, em qualquer lugar que for, vai ser branca. Ela não tem um nome estranho como o meu, seu nome é comum e todas as pessoas falam que é um nome forte, causa impacto. Tem cabelos lisos. Olhos grandes. Tem menos de um mês de vida e já brinca com os penduricalhos do berço, já sorri de algumas caretas dos pais. Tem livros na estante. Livros infantis, de história, de estudos sociais, filosofia, literatura e até artes. Tem um pai professor bem informado, que não é machista,  uma mãe que dedica seu tempo aos filhos e adora fazer bolo de chocolate, e certa noção de feminismo. Tem um irmão hiper carinhoso que canta quando ela está revoltada.

Ela é privilegiada por ser branca, saudável, aparentemente inteligente, ter informação à disposição, pais que se amam, um lar aparentemente saudável, uma gata esperta. Mas não é privilegiada apenas por ser mulher.

Minha filha nasceu privilegiada, mas ( e sempre tem um mas), já nasceu menina.

Sei que não sou sexy

“Eu sei que não sou sexy” ela disse, assim, bem baixinho, com a voz quase engatinhando pelos vãos do espelho rachado.  Ele observava sua arrumação com certa lisonja, orgulhava-se da intimidade exagerada que se inflamava a cada escovada daquela madeixa preta alisada. Sentia-se privilegiado em poder acompanhar o antes e depois da vaidade quase lúdica que a companheira desfilava.  De batom cor de rosa e cabelo preso, ela se permitia a liberdade de seus seios pequenos.  O não uso do sutiã era algo quase natural. Ele não faltava, e se houvesse, não acrescentava, era tão dispensável quanto saltos altos. Seu corpo e seus modos não precisavam de correção. Esperava ansioso para que o tempo rolasse para fora do couro fios crespos e grisalhos. Esperava ansioso que o final do dia chegasse levando com a rotina todo o rosa dos lábios grossos e escuros de cigarro barato. Aconchegava-se  em suas grandes ancas, esperançava-se nelas. Ali, naquelas gordas ancas, alimentava-se de futuro.

Mas ela sabia que não era sexy. Entre tantas outras coisas que ela sabia sobre si. Todo esse auto conhecimento não reprimia a intimidade, o afeto e o desejo. Aquele saber todo sobre si somente fazia aumentar a fome.