Carinha de menina, ele disse

 

Quando sai do hospital a primeira coisa que ouvi a cerca de minha filha foi “Ela já tem rosto de menina, não é como os outros recém nascidos que não dá pra saber o sexo”

Minha filha nasceu privilegiada. Ela é branca, como branca de neve, bem branca. Não vai passar por situações de racismo como eu já passei. Não vai ser branca demais para os pretos e nem preta demais para os brancos, sempre, em qualquer lugar que for, vai ser branca. Ela não tem um nome estranho como o meu, seu nome é comum e todas as pessoas falam que é um nome forte, causa impacto. Tem cabelos lisos. Olhos grandes. Tem menos de um mês de vida e já brinca com os penduricalhos do berço, já sorri de algumas caretas dos pais. Tem livros na estante. Livros infantis, de história, de estudos sociais, filosofia, literatura e até artes. Tem um pai professor bem informado, que não é machista,  uma mãe que dedica seu tempo aos filhos e adora fazer bolo de chocolate, e certa noção de feminismo. Tem um irmão hiper carinhoso que canta quando ela está revoltada.

Ela é privilegiada por ser branca, saudável, aparentemente inteligente, ter informação à disposição, pais que se amam, um lar aparentemente saudável, uma gata esperta. Mas não é privilegiada apenas por ser mulher.

Minha filha nasceu privilegiada, mas ( e sempre tem um mas), já nasceu menina.

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