Só até o molho de tomate, por favor…

Atirou-se da porta como um grito. O sol estava ardendo e ainda era bem cedo. Havia em sua mente uma lista de obrigações do lar e ela ainda estava no café, em pé, na varanda.  “Com esse sol, podia aproveitar para lavar os cobertores, mas não sei se dá tempo”. Queria comer bem devagar passeando com Alice Através do Espelho, mas tudo precisava ser rápido, o coelhinho do tempo já buzinava em seus ouvidos, logo o bebê acordaria pedindo leite, a gata viria num só ronronar pedindo carinho. E o marido pedindo ventre. E ela, só pensava no espelho de Alice.  Havia um pouco de dor em seu café. Bem pouco de nicotina. Muito de desejo.

Ninguém lhe pedira conforto, ninguém lhe pedira limpeza, arrumação ou louça lavada. Todos da casa já acordavam lhe suplicando carinho. Um carinho que tinha se perdido entre afazeres domésticos. “Depois que aprendeu a passar pano no chão desaprendeu o cafuné”, dizia-lhe seu marido.  Enquanto alastrava-se pela casa o cheiro de molho de tomate com pimenta o filho grudava os braços pedintes em suas pernas.

A medida que foi retomando seu corpo para si, abandonava os outros corpos da casa, os cuidando de longe, na delicadeza de um almoço bem feito, de um café recém passado ou de um amaciante cheiroso na roupa.

Haveria de ter um retorno. Pois a saudade era grande. Pois não queria perder o domínio de seu corpo. Toda a conquista da independência íntima.  Do poder da posse.

O café acabando, sentou-se na mesa da cozinha e abriu o capítulo do Jardim das Flores, e esperou, leu, esperando, até que os outros acordassem e lhe roubassem só um pouco. Só até o almoço, e o molho de tomate.

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Vida de Adulto

Todos se  preparam, por  toda adolescência para um tipo de sociedade, que pode até ser idealizada em certa porcentagem, mas era aquela sociedade que estava se abrindo. Sonhamos que poderíamos ser quem fossemos, sem nos amarrar, algo que a infância não permitia, a idade adulta permitiria. Então, faculdade termina. Todos os esforços para poder usufruir daquela sociedade com poucos grilos que as gerações passadas foram preparando pros filhos do amanhã.

Tudo começa, de uma hora pra outra, se desmoronar. Ela sentia-se assim, desmoronada. Era bem essa a palavra. Não foi bem como o planejado. Seus cabelos curtos começaram a ser mal vistos de um dia pro outro. Suas ideias pareciam indecentes. Seus outrora maravilhosos desenhos de anatomia, passaram a serem vistos como vulgaridade. Presar por seus direitos passou a não valer  mais a pena. Seus sonhos não eram mais inspiradores, era uma mala ingênua de luxinhos vãos. Suas reclamações, seu choro, seu sofrimento, passaram a serem vistos como frescuras de gente mimada. Seus ovários doíam. Seu estomago gritava. Seus pulmões respiravam mal. O dinheiro era curto. Suas roupas eram velhas e impessoais. Seus sapatos eram impessoais.

Todos tinham uma opinião. Todos tinham um espelho.

Ela não tinha mais um espelho. Não se via mais. Não se achava necessária. Não era mais necessária. Não exercia mais nenhuma função. Todo o seu eu foi engolido, sabe-se lá como ou porque.

Não sabia como agir. Se se rendia de vez ou comprava suas armas.

Depois de muito choro. Muitos antidepressivos e terapias sem sentido. Depois de muitas tragédias e delírios. Resolveu deixar os cabelos crescerem livremente.